Programa dá início a rodas de conexão com Ricardo Abramovay

Em julho, o Programa de Aceleração de Negócios e Investimento de Impacto da Plataforma Parceiros pela Amazônia deu início às Rodas de Conexão, reunindo empreendedores, parceiros, pesquisadores e empresas para debater temas importantes para o ecossistema dos negócios de impacto amazônicos.

O primeiro convidado foi Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP e autor do livro “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza”. Integra o grupo de bioeconomia do Science Panel for the Amazon (SPA), projeto cooperativo para reunir pesquisa científica sobre o bioma Amazônia, com apoio da Rede de Soluções Sustentáveis das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. O grupo, composto por 150 especialistas e líderes de diversas áreas, deve divulgar um primeiro relatório no início de 2020, apontando soluções de conservação e política.

A conversa girou em torno do tema Empreendedorismo e negócios na Amazônia: soluções para o desmatamento, mudança do clima e recuperação econômica pós covid-19, e contou com mais de 40 participantes.

Abramovay iniciou sua fala contextualizando o processo de reprimarização econômica pelo qual passa não só o Brasil, mas a América Latina em geral, com produtos basicamente agropecuários e minerais, e destacou, no cenário brasileiro, uma falta de estratégia no sentido de modificar as bases do crescimento econômico em direção a algo mais inovador e inclusivo. Relembrou as manifestações recentes dos fundos de investimento em relação à produção brasileira, apontando o risco de o país se tornar cada vez menos relevante na oferta de bens e serviços globais e em inovação.

“O processo de desmatamento da Amazônia não vem de hoje, embora tenha se agravado muito nesse governo. Essa falta de estratégia em modificar o desenvolvimento e promover um crescimento menos desigual e mais inovador produziu e produz atraso, desigualdade de renda e distância da fronteira global da inovação. Onde podemos ser competitivos? Podemos ter relevância global na economia do conhecimento da natureza. Nossas maiores chances de participar do processo global de inovação estão na exploração sustentável da biodiversidade, com inovação e tecnologia. O importante no trabalho de vocês é a junção entre empreendedorismo descentralizado e inovação. Isso é uma preciosidade, algo que o Brasil não tem”, avalia Abramovay.

Em suas pesquisas em literatura global sobre biodiversidade, ele relata não ter encontrado menção a florestas tropicais e nem mesmo luta contra desigualdades, dois pontos que destaca como fortes no Programa de Aceleração. Uma rede de empreendedores empenhados em mudar a dinâmica do uso dos recursos na Amazônia, com oportunidades proporcionadas pelo polo de informática no estado do Amazonas e pela existência de uma comunidade acadêmica importante na região, disposta a participar desse processo.

“Vocês estão introduzindo algo novo, que é o empreendedor que se apoia em participação ativa da base econômica da sociedade. O lucro e as oportunidades econômicas não nascem da homogeneização da paisagem e das pessoas. Ao contrário, o que vocês fazem é fundamentado na diversidade e na qualidade E em cada um desses negócios, a sustentabilidade está no centro”, avalia.

Desafios

Empreendedores, parceiros e integrantes do Programa de Aceleração presentes a esta primeira Roda de Conexão levantaram questões como subsídios a modelos de desenvolvimento tradicional em detrimento do investimento em modelos mais sustentáveis, o dilema escala versus sustentabilidade, o papel das organizações internacionais, políticas públicas e impacto de comunidades tradicionais.

“Minha dúvida é o quanto essas iniciativas vão ter impacto em médio e longo prazo. Não sabemos o quanto de impacto vamos ter realmente no PIB da Amazônia, ou que cenário vislumbrar para o interior da Amazônia. Acredito nessas iniciativas [os negócios acelerados pela PPA], mas não tenho segurança do potencial escalável delas tendo em vista o tamanho da Amazônia”, pontuou Denis Minev, CEO da Bemol e integrante da PPA.

“Está na ideia de rede a resposta. Vai ser necessária uma multiplicidade de negócios pequenos. O segredo para gerar impacto e riqueza é a rede que vai se formar”, avalia Abramovay. “O impacto está mais vinculado à gestão e à biodiversidade do que à escala. Um cuidado que se deve ter, se esses negócios crescerem, é que essa multiplicação não cerceie o modo de vida dos povos da floresta. ”

Ainda na questão do tipo de desenvolvimento que seria sustentável para a Amazônia, Camila Sobral Barra, da Garupa, organização Parceira do negócio Serras Guerreiras de Tapuruquara, apontou o desafio de gerir recursos e negócios respeitando a governança das comunidades indígenas e, ao mesmo tempo, manter a experiência de qualidade – o Serras Guerreiras de Tapuruquara trabalha com turismo de base comunitária em Terras Indígenas. Fernando Mariano, da Cacauway, destacou a concorrência de grandes marcas que compram o cacau da Amazônia e usam a floresta como atrativo de vendas, com estruturas mais robustas para isso, conseguindo melhores condições de comercialização, como um dos desafios nessa equação.

“No caso do cacau, da fabricação de chocolate, o mercado de nicho tem poder muito forte e é cada vez mais importante. É a rede que vai atestar o que está por trás do produto, ” aponta Abramovay. “Quanto aos contatos com comunidades, a relação dessas populações com a natureza deve ser muito bem cuidada. E não devemos encarar o uso desses recursos apenas sob o ponto de vista das populações tradicionais, mas também estimular o envolvimento de agricultores, assentados e fazendeiros interessados em fazer tudo dentro da lei, com sustentabilidade, promovendo inclusive restauração florestal”, completa.

Ted Gehr, diretor da USAID Brasil, questionou Abramovay sobre o papel de outros governos e instituições internacionais no desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia. Em resposta, ele destacou a importância de uma cooperação internacional para que as questões amazônicas sejam pensadas também em âmbito global, por afetarem o planeta como um todo, e citou como exemplos o Science Panel for the Amazon e o Fundo Amazônia como exemplos dessa cooperação. O estímulo a redes de intercâmbio entre estudantes estrangeiros também foi citado por Abramovay como uma das ações estratégicas, em especial porque muitos dos negócios de impacto acabam nascendo em ambiente acadêmico.

Outro ponto levantado por Abramovay é a premência de se pensar e definir que tipo de infraestrutura se quer para dar suporte a essa economia da Amazônia: “A sociedade se mobiliza em torno da preservação da floresta, mas é difícil se mobilizar pela exploração econômica sustentável da Amazônia. A reflexão quanto a isso ainda é muito precária, e esse trabalho que vocês estão fazendo é muito importante. Inclusive para a democracia do Brasil, porque é um trabalho que se insurge contra o modo como as pessoas trabalham com a natureza e com outras pessoas”.

Provocado a elencar frentes estratégicas para estruturação de uma bioeconomia na Amazônia, Abramovay destacou: inovação e tecnologia; infraestrutura; intensificação do estudo sobre empreendedorismo; e relação com grandes empresas da Amazônia.

Próximas Rodas de Conexão

O Programa promoverá outras três Rodas de Conexão ao longo dos próximos meses, focadas em:

Ø  Novos canais de financiamento e crédito = apresentação e direcionamento para oportunidades de crédito e financiamento no momento atual, incluindo linhas emergenciais surgidas por conta da pandemia;

Ø  Requisitos para inserção no grande varejo = apresentação dos requisitos e processos para inserir produtos no grande varejo;

Ø  Gestão de pessoas e autocuidado = apresentação de discussão sobre relacionamento e cuidados com a equipe dos negócios, parceiros, comunidades e autocuidado do empreendedor em tempos de pandemia. 

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